Treinar, estudar, se preparar e se dedicar. Repetir todas as semanas. Sempre pensando no próximo jogo. Os próximos noventa minutos de trabalho e esforço. Faça chuva ou faça sol. O caminho não é fácil. Aquilo que era só um sonho de criança, se tornou o trabalho de adulto. É necessário muita dedicação e persistência. Não, este não é um texto sobre jogadores de futebol.
Desde 2024, o Botafogo de Futebol e Regatas, clube brasileiro que conta com diferentes modalidades esportivas, implementou, nos jogos do time masculino de futebol, uma equipe de líderes de torcida dançarinas: as FogoCheers. Elas fazem uma apresentação antes dos jogos e ficam ao lado do campo animando tanto o time quanto a torcida.
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Pioneiras no Sudeste, o projeto começou a partir de um pedido do então presidente da SAF (Sociedade Anônima de Futebol) do Botafogo, John Textor, que buscava tornar a experiência de assistir aos jogos e ir ao estádio de futebol um espetáculo. As apresentações delas, bem como a participação ativa de mascotes, os shows de luzes, sons, fumaça e fogo, fazem parte dessa estratégia. Tornar o ambiente do estádio uma experiência marcante.
Em uma combinação única entre dança, esporte e representatividade, as integrantes são um grupo feminino em meio ao ambiente majoritariamente masculino do futebol. Elas permitem visibilidade e valorização das mulheres torcedoras e incentivam jovens meninas a verem no futebol, seja dentro ou fora de campo, um ambiente do qual também fazem parte.
Dedicação e perseverança da paixão pela dança
O trabalho é árduo. Elas chegam ao estádio quatro horas antes do jogo para ensaiar coreografias, receber os jogadores do time, apresentar uma dança e ficam ao longo dos 90 minutos dançando à beira do campo, independentemente do clima. Todas as quatro entrevistadas acumulam mais de um emprego e estudos.
Ana Karla Ruiz é dançarina, mas também é coreógrafa e participa da seleção das integrantes desde o início do projeto. Ela conta que começou na dança aos 4 anos por vontade própria e se apaixonou. Formada aos 19 anos no Centro de Dança Rio, começou a trabalhar na Globo em 2022 em programas como Domingão com Huck, Caldeirão com Mion, Criança Esperança e mais.
Em paralelo, Ana Karla cursou a faculdade de Publicidade e Propaganda na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e concluiu no início deste ano. Atualmente está lançando sua agência de marketing, enquanto mantém o trabalho como bailarina na Globo e no Botafogo. “Foi loucura. Assim, eu terminei a faculdade em abril deste ano. Defendi meu TCC […] no dia seguinte do show de 60 anos da Globo em que eu estava participando.”, explicou Ana Karla.
Já Stefany Pontes é dançarina das FogoCheers mas também é formada em direito, trabalha com assistência jurídica e é criadora de conteúdo para as redes sociais. Além dessa rotina ocupada, Stefany voltou a estudar dança para se aprimorar e melhorar sua técnica. Ela ainda precisa enfrentar todos os dias a distância e dificuldades de quem mora na Zona Oeste.
Na infância, a dança já a impressionava, mas encontrou obstáculos por morar em Campo Grande: “Porque eu sou da Zona Oeste e lá por muito tempo foi muito complicado essas paradas de cultura – de aula de dança, de teatro; onde tinha era muito escasso mesmo. Então era longe da minha casa e quando minha irmã nasceu eu parei de vez”, contou Stefany.
Sofia Aranha, outra integrante do grupo, entrou no balé aos 3 anos de idade e hoje se especializou em modalidades como hip hop e jazz. Auxiliou na elaboração de algumas coreografias das FogoCheers e, atualmente, além do Botafogo, concilia ser professora de danças urbanas com a faculdade de Psicologia e um grupo de dança chamado SDC Brasil Crew (Street Dance Connection). “A gente dedica bastante tempo realmente [ao FogoCheers] mas estou na busca de novos trabalhos de dança para somar também. Então o meu foco agora é dança, apesar de eu fazer faculdade de psicologia”, disse Sofia.
Ana Herrera também começou na dança aos 3 anos, mas parou depois de aproximadamente 10 anos por conta da dificuldade de encontrar trabalho no balé. Hoje ela conta que esse momento mostrou como a dança é uma paixão em sua vida. “Essa coisa de não poder dançar, de não expressar a minha arte, acabou comigo psicologicamente e eu tive que arranjar algum outro jeito de dançar. E […] o balé é um lugar muito ríspido, um lugar muito difícil de estar, principalmente profissionalmente, então eu fui para o hiphop, eu fui para as danças urbanas e ali eu me encontrei”, explicou Ana.
No momento, ela é professora de danças urbanas, está se formando em Design na PUC e integra a equipe de FogoCheers. Ana acredita no potencial de unir seu trabalho de designer com a dança e, atualmente, trabalha no marketing de um grupo de dança do qual faz parte, o SDC Brasil Crew da SDC Brasil – o mesmo de Sofia.
Desvalorização e preconceitos
Todas são apaixonadas pela dança e pelo trabalho que realizam como FogoCheers. Contudo, não conseguem escapar dos preconceitos que permeiam a sociedade. Comentários machistas, gordofóbicos e racistas são perceptíveis nas redes sociais da equipe e nos perfis das meninas.
O time é composto por mulheres diversas, justamente uma tentativa pensada pela coreógrafa e dançarina, Ana Karla Ruiz, de que o time representasse a torcida botafoguense como um todo. “Quando eu montei o primeiro elenco eu fiz questão de apostar em todos os tipos de diversidade possível […] para que a gente possa cada vez mais ter uma identificação maior da torcida com a gente. Representatividade é muito importante. A gente precisa de mulheres pretas, brancas, gordas, … de mulheres de todos os tipos sabe.”, comentou a coreógrafa.
Ana Herrera contou que ela e outras colegas já sofreram com gordofobia. “Você vê muito nos comentários das pessoas falando mal de mim ou de outras das nossas colegas que têm um corpo um pouco diferente do estabelecido como padrão. É por isso que a gente é muito próxima porque a gente se apoia em relação a isso. É muito importante porque por mais que a gente esteja lá trazendo representatividade, trazendo nosso lado vulnerável ali, […] é uma coisa que nos afeta.”
Tal comportamento muitas vezes é pautado pela sexualização do feminino e desvalorização da profissão. As integrantes relatam que, devido à visibilidade inerente à profissão, já foram acusadas de se sexualizarem para “chamar atenção”. Esses insultos, além de atacá-las pessoalmente, refletem uma descredibilização do trabalho realizado, pois todas são dançarinas profissionais.
“A gente toma muito cuidado para não passar essa imagem de tipo: ‘Ai, nossa, elas tão querendo visibilidade se sexualizando’. A gente toma muito cuidado porque todo mundo ali é muito profissional. […] Então ninguém quer ser resumido a ‘quer ficar se sexualizando’. Não, a gente está ali para mostrar que a gente dança, que a gente é um time, que a gente é unida, que nós somos parte do Botafogo, que a gente ama o Botafogo”, explicou Stefany Pontes.
Sexualizar as mulheres da equipe é um reflexo de uma sociedade machista em um ambiente majoritariamente masculino como é o futebol. É perceptível nas publicações em redes sociais que muitos homens fazem comentários pejorativos com o intuito de diminuir a profissão delas e assegurar poder no ambiente esportivo.
“A gente se apoia muito nessas questões porque a gente sabe que as redes sociais, Instagram e TikTok, eles quase não derrubam esse tipo de comentário se não tiver denúncia. Então, a gente vai lá e a gente fica de olho nos comentários a gente mesmo denuncia e tenta fazer cair”, afirmou Stefany Pontes.
Valorização, representação e inspiração
Essas dificuldades são uma parte de um todo muito maior. Essas mulheres são pioneiras no Sudeste e servem de inspiração e representação para tantas outras que agora podem ver o futebol, cada vez mais, como um ambiente a que pertencem.
Sofia Aranha falou sobre essa importância: “E acho muito legal a gente ter esse espaço agora de trazer mulheres para o futebol porque existe muito esse preconceito de ter uma cultura masculina sobre o futebol. Então, nesse projeto, uma das principais ideias é trazer as mulheres para dentro do futebol Tanto a gente quando está trabalhando quanto na torcida que olha pra gente e se identifica”.
A visibilidade que elas têm no futebol e o acolhimento da torcida veio primeiro, e de maneira tão genuína, pelas crianças. “Um momento muito marcante para mim foi quando as crianças começaram a ver a gente, porque, antes dos adultos verem a gente, quem viu primeiro foram as crianças. Foram as meninas”, relembra Stefany.
Quando começaram a falar sobre as crianças, as meninas que as viam, as entrevistadas ficaram com a expressão iluminada. Todas comentaram sobre a mesma situação: “Quando a gente olha para cima assim tinha uma menininha na arquibancada com uniforme de cheerleader, […] foi muito marcante para a gente. Ela estava com pompom e tal; então assim é muito legal”, recorda Ana Karla.
“E ela é uma criança preta que a gente ficou muito feliz de estar se sentindo incluída. Porque é isso, mais uma vez trazendo essa pauta, mas isso é muito importante porque a gente tem pessoas muito diversas na nossa equipe e é muito importante que essas pessoas se sintam representadas pela gente, não só por serem botafoguenses, mas porque a gente também está ali com o corpo diferente, com um corpo que merece reconhecimento. E foi muito legal ver essa criança. Ela estava muito feliz e a gente ficou um tempão olhando pra ela. A gente falou com ela por um tempo e ela, assim, não deixava de ficar feliz”, comentou Ana Herrera.
Para além da representatividade, as FogoCheers são uma oportunidade de as meninas sonharem em trabalhar com dança e até mesmo outra chance de se aproximarem do futebol sem necessariamente jogar. “É uma inspiração e principalmente para as meninas porque o futebol – por exemplo, eu sou botafoguense porque meu pai era botafoguense, meu avô, meus tios – é um meio muito masculino socialmente. […] Ter uma representatividade ali junto com o time masculino, no caso um grupo feminino, eu acho muito importante”, comentou Stefany comentou. [Significa] que elas podem estar ali de alguma forma e, hoje em dia, até o time feminino do Botafogo está ganhando mais visibilidade. Eu acho que essas pautas são muito importantes principalmente pras meninas novas que gostam de futebol querem estar lá […] para sonhar também tipo: ‘Ah eu quero ser uma FogoCheer ou eu quero entrar no time do Botafogo”, acrescentou
Essas dançarinas – Ana Herrera, Ana Karla Ruiz, Sofia Aranha e Stefany Pontes – hoje fazem parte de algo que para elas era inimaginável no passado, mas que pode ser um sonho possível para outras crianças. Elas servem de inspiração e mostram que não é preciso desistir de um sonho de infância na vida adulta. É possível viver e unir diversos interesses e paixões.
“Unir a dança e o futebol para mim é um sonho. É muito fácil trabalhar assim, eu nem considero trabalho, porque eu já ia pra estádio mesmo todas as vezes que o Botafogo estava jogando. Então, agora eu vou pra trabalhar para receber o meu dinheiro e, de fato, você vence na vida”, relatou Ana Karla.
Assim, valorizar essas mulheres vai muito além de vê-las como as trabalhadoras dedicadas que são. É valorizar a representação feminina em um ambiente masculino. É entender a importância de as crianças terem exemplos e enxergarem possibilidades que antes não eram possíveis. É comprovar que o futebol é feito para todos. E que a dança é uma paixão e um sonho de criança que pode virar a profissão de um adulto.
Inspirar jovens meninas é ver um novo mundo de possibilidades. É poder sentir que o trabalho que está sendo realizado pode ter grande impacto em uma criança. A profissão que elas estão lutando para abrir espaço pode ser no futuro o sonho de alguém. Já que para elas, como disse Stefany, “é um sonho tão louco que eu nunca tinha sonhado”.
(*) Trabalho produzido para a disciplina Reportagem I, do curso de Jornalismo da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/UFRJ), sob a orientação dos professores Luan Pazzini Bittencourt e Marcelo Kischinhevsky.
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