Entre o espetáculo e o silêncio: a crise da coletividade nas políticas culturais
A cena cultural brasileira expõe um contraste inquietante: de um lado, grandes eventos lotados, com estruturas robustas e altos investimentos destinados a artistas de fora; de outro, uma realidade marcada pela ausência de apoio aos criadores locais, especialmente os iniciantes e aqueles situados nas periferias. Essa disparidade não é apenas um problema de gestão, mas um sintoma de um modelo cultural que prioriza o impacto imediato em detrimento da construção coletiva e sustentável das artes.
A lógica que sustenta esses grandes espetáculos frequentemente ignora o potencial criativo dos territórios onde ocorrem. Ao privilegiar nomes já consolidados — muitas vezes desvinculados das dinâmicas culturais locais —, cria-se um ciclo de invisibilidade para artistas da própria região. Sem acesso a palcos, financiamento ou redes de circulação, esses artistas permanecem à margem, enquanto o público é induzido a consumir uma produção cultural que não dialoga plenamente com sua realidade.
Paralelamente, observa-se uma fragilidade nas relações entre os próprios artistas. A ausência de engajamento de profissionais mais experientes nos eventos de artistas iniciantes evidencia uma ruptura no sentido de coletividade. Esse distanciamento enfraquece a construção de redes solidárias, fundamentais para o fortalecimento do campo artístico. Quando artistas deixam de apoiar outros artistas, perde-se não apenas público, mas também a possibilidade de troca, formação e continuidade.
Nas periferias, essa situação se agrava. A carência de políticas públicas consistentes e a falta de reconhecimento institucional contribuem para a exclusão sistemática desses territórios do circuito cultural formal. No entanto, é justamente nesses espaços que emergem algumas das expressões mais potentes e inovadoras da arte contemporânea. Ignorá-las é comprometer a diversidade e a vitalidade da cultura como um todo.
Dessa forma, o que se observa não é um fracasso ocasional, mas a consolidação de um modelo que desarticula a força coletiva das artes. Ao fragmentar os agentes culturais e concentrar recursos, esse sistema enfraquece as bases que sustentam a produção artística a longo prazo.
Reverter esse quadro exige mais do que ajustes pontuais. É necessário repensar profundamente as políticas culturais, priorizando investimentos contínuos, descentralizados e comprometidos com a realidade local. Fortalecer redes de colaboração, incentivar a presença e o apoio entre artistas e reconhecer as periferias como espaços legítimos de criação são passos fundamentais para reconstruir uma cultura verdadeiramente coletiva.
por Valberlúcio

